Tesouro Direto ainda vale a pena se você tem medo de perder dinheiro

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Lembro do exato momento em que decidi parar de deixar dinheiro parado em poupança. Não foi um insight brilhante nem uma planilha elaborada — foi a sensação de ver o extrato e perceber que, descontada a inflação, eu havia perdido poder de compra por dois anos consecutivos. Fui procurar alternativa e o Tesouro Direto apareceu como a resposta mais óbvia. Fiquei desconfiante. Óbvio demais. Simples demais. Aquilo tinha que ter alguma pegadinha.

Não tinha. Ou melhor: tinha armadilhas, sim — só que diferentes das que eu imaginava.

Escrevo isso porque esse ciclo de desconfiança, pesquisa, adesão e depois arrependimento parcial é o percurso de boa parte dos brasileiros que chegam ao programa. E muita da confusão vem de mitos que se perpetuam, alguns por desinformação genuína, outros porque convencem gente a deixar o dinheiro em produtos piores para o banco.

O mito da complexidade: “é coisa de quem entende de finanças”

O Tesouro Direto foi criado em 2002 pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3 — então chamada de BOVESPA — com o objetivo explícito de democratizar o acesso a títulos públicos federais para pessoas físicas. Antes disso, esses papéis eram domínio quase exclusivo de fundos de investimento e instituições financeiras. A plataforma existe há mais de duas décadas e foi sendo simplificada ao longo do tempo.

A realidade: hoje, qualquer pessoa com CPF ativo, conta em uma instituição financeira habilitada e R$ 30,00 disponíveis consegue comprar um título. Trinta reais. Menos que um almoço no centro de São Paulo.

O processo passa por uma corretora ou banco habilitado — há dezenas deles cadastrados no site do Tesouro Nacional — e não exige conhecimento técnico avançado para começar. Isso não significa que todos os títulos sejam igualmente simples de entender, mas o ponto de entrada é genuinamente acessível.

O mito do risco zero: “é garantido, então não preciso pensar”

Aqui mora o perigo real, e eu prefiro ser direto: o Tesouro Direto não é isento de risco de perda financeira se você resgatar antes do vencimento.

Os títulos prefixados — como o Tesouro Prefixado — e os indexados à inflação com componente de juros fixos — como o Tesouro IPCA+ — têm seus preços marcados a mercado diariamente. Isso significa que, se a taxa de juros sobe depois que você comprou, o preço do seu título cai. Se você vender nesse momento, recebe menos do que investiu. Não é hipótese remota: quem comprou Tesouro IPCA+ com vencimento longo em períodos de juros baixos e precisou resgatar quando a Selic voltou a subir sentiu esse efeito na prática.

A proteção existe — e é real — mas tem uma condição: você precisa carregar o título até o vencimento. Só aí o Tesouro Nacional garante o retorno contratado na compra. Antes disso, o mercado precifica.

O Tesouro Selic, por sua vez, acompanha a taxa básica de juros diariamente e tem volatilidade de preço muito baixa — quase nula na prática. É o mais indicado para quem quer liquidez e previsibilidade no curto prazo.

O mito da isenção fiscal: “não paga imposto”

Paga. O Imposto de Renda sobre os rendimentos do Tesouro Direto segue a tabela regressiva de renda fixa estabelecida pela Receita Federal: 22,5% para aplicações de até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% para prazos acima de 720 dias. A alíquota cai com o tempo — há uma lógica de estímulo ao investimento de longo prazo embutida nisso — mas nunca chega a zero.

Há ainda o IOF para resgates em menos de 30 dias, cobrado em alíquota regressiva que começa em 96% sobre o rendimento no primeiro dia e zera no trigésimo. Quem saca em menos de um mês pode ter o rendimento quase integralmente consumido pelo imposto.

Isso muda o cálculo de rentabilidade líquida — e qualquer comparação honesta com outros produtos precisa considerar isso. Uma LCA ou LCI isenta de IR pode ser mais vantajosa dependendo do prazo e da taxa oferecida, mesmo que o rendimento bruto seja menor.

O mito do rendimento inferior: “banco rende mais”

Esse é o mito que mais me irrita, porque ele costuma ser vendido por quem tem interesse direto em que você não migre o dinheiro.

A poupança rendeu, por muitos anos, abaixo da inflação. A regra atual — vigente desde 2012, quando a Selic caiu abaixo de 8,5% ao ano pela primeira vez — vincula o rendimento da poupança a 70% da Selic quando esta está em ou abaixo desse patamar, mais a Taxa Referencial. Quando a Selic está acima de 8,5%, o rendimento volta à regra antiga de 0,5% ao mês mais TR. Em ambos os cenários, comparado ao Tesouro Selic líquido de IR — especialmente para prazos acima de dois anos, quando a alíquota cai para 15% — o Tesouro costuma ganhar.

Fundos DI de grandes bancos com taxa de administração elevada são outro concorrente que frequentemente perde para o Tesouro Selic. Uma taxa de 1% ao ano de administração, que parece pequena, corrói parte considerável do rendimento real ao longo do tempo.

Minha posição, sem rodeios

Acredito que o Tesouro Direto é o melhor ponto de partida para o investidor conservador brasileiro — especialmente para quem está saindo da poupança pela primeira vez. Não porque é perfeito, mas porque combina segurança de crédito real (o emissor é o governo federal, e um calote explícito da União em reais seria um evento sem precedentes na história recente do país), liquidez diária no caso do Tesouro Selic e custos baixos quando a corretora não cobra taxa de custódia além da da B3, que hoje é de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos acima de R$ 10.000,00 — abaixo desse valor, a taxa é zero.

Isso é uma opinião assumida. Sei que há quem prefira CDBs de bancos menores com taxas mais agressivas, fundos de crédito privado ou até renda variável desde o início. Cada escolha tem sua lógica. Mas para quem tem medo de perder dinheiro — o que é legítimo, não uma fraqueza — o Tesouro Selic oferece algo que poucos produtos combinam: previsibilidade, liquidez e um emissor que não vai quebrar da noite para o dia.

O que os defensores do produto não costumam dizer

A custódia da B3, mesmo que baixa, existe. Corretoras que oferecem “taxa zero” geralmente lucram de outras formas — spread na compra, produtos atrelados. Isso não é necessariamente ruim, mas o custo do investimento nunca é literalmente zero.

O Tesouro RendA+ e o Tesouro Educa+, lançados nos últimos anos, têm estruturas de pagamento diferentes — projetados para renda mensal na aposentadoria e para custear educação, respectivamente — e exigem entendimento específico antes da adesão. Não são versões melhoradas do Tesouro IPCA+ para todo perfil: têm lógica própria e precisam ser avaliados com cuidado.

E tem algo que os dados não conseguem capturar completamente: o comportamento do investidor sob pressão. O título mais seguro do mercado se torna arriscado nas mãos de quem resgata no pior momento por ansiedade ou por necessidade emergencial não prevista. Reserva de emergência fora do Tesouro — em produto com liquidez imediata e sem marcação a mercado — continua sendo uma etapa anterior ao investimento de médio e longo prazo.

O que ainda fica em aberto — e depende de você

Tudo o que descrevi até aqui tem um pressuposto implícito: que o cenário macroeconômico brasileiro permanece dentro do que poderíamos chamar de faixa de normalidade institucional. O Tesouro Direto é garantido pelo Tesouro Nacional, e o risco soberano do Brasil — avaliado continuamente pelas agências de classificação de risco — não é zero. Em situações de estresse fiscal severo, o comportamento dos títulos pode surpreender negativamente, mesmo que um default formal seja improvável.

Há também o que depende inteiramente do seu caso: seu prazo de investimento, sua necessidade de liquidez, sua alíquota de IR (que pode variar conforme outros rendimentos no ano), e se você tem acesso a alternativas isentas — como LCIs e LCAs — em condições competitivas. O Tesouro Direto não é universalmente superior a tudo. É uma ferramenta excelente dentro de um conjunto de possibilidades que precisa ser avaliado com honestidade, não com a preguiça de quem quer uma resposta única para todos os casos.

O que eu posso afirmar, depois de anos acompanhando o produto e o mercado: quem saiu da poupança em direção ao Tesouro Selic, manteve disciplina e não tentou cronometrar o mercado saiu melhor na maioria dos cenários que vivemos nas últimas décadas. Isso não é garantia de nada — mas é um histórico que pesa.

A dúvida que fica — e que ninguém responde por você — é se você vai conseguir não mexer no dinheiro quando o extrato mostrar algo que não esperava.

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