Criptomoedas estáveis valem a pena se você quer sair da poupança

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Stablecoin — esse termo que parece saído de um white paper técnico — é, na prática, uma promessa simples e ao mesmo tempo audaciosa: uma criptomoeda que não enlouquece. Enquanto o Bitcoin pode perder 30% do valor numa manhã de segunda-feira, a stablecoin foi desenhada para ficar ancorada a algum ativo externo, geralmente o dólar americano. Cada unidade equivale, em teoria, a um dólar — e fica assim, sem drama, sem volatilidade matinal.

A simplicidade da ideia é sedutora. E para quem já enjoou de ver a poupança render abaixo da inflação mês após mês, essa proposta chega num momento bastante oportuno.

O ponto de partida: onde você provavelmente está agora

A poupança brasileira é uma das aplicações mais antigas e mais usadas do país — e também uma das que mais decepcionam quem para pra calcular de verdade. A remuneração da caderneta segue uma regra definida pelo Banco Central: quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), que costuma ser próxima de zero. Quando a Selic cai abaixo desse patamar, o rendimento cai junto. Em cenários de inflação elevada, o resultado real frequentemente fica negativo — você perde poder de compra mesmo vendo o saldo crescer.

Esse é o ambiente em que muita gente começa a procurar alternativas.

Como as stablecoins entraram nessa conversa

As primeiras stablecoins com relevância surgiram associadas ao crescimento das exchanges de criptomoedas, como instrumento para que traders pudessem “estacionar” valores sem sair do ecossistema cripto. Com o tempo, elas ganharam outra utilidade: a de reserva de valor dolarizada acessível a qualquer pessoa com smartphone e uma conta numa corretora.

No Brasil, o interesse cresceu especialmente depois que as exchanges nacionais passaram a oferecer rendimento sobre stablecoins mantidas em custódia — uma espécie de “poupança em dólar”, com retornos que, em algumas plataformas, chegam a superar o rendimento nominal da poupança em reais.

O caminho prático: do cadastro ao primeiro rendimento

Na prática, o processo começa com a escolha de uma corretora de criptoativos. As principais que operam no Brasil são reguladas ou ao menos registradas na Receita Federal para fins de declaração, mas o grau de supervisão ainda é diferente do que se aplica a bancos tradicionais — detalhe que voltaremos adiante.

Feito o cadastro e a verificação de identidade (o KYC, exigido por lei desde a regulamentação do setor), você deposita reais, converte para a stablecoin escolhida — geralmente USDT (Tether) ou USDC (USD Coin) — e, se a plataforma oferece, ativa o rendimento automático. Algumas corretoras pagam esse rendimento em stablecoin, outras em reais, e as taxas de conversão variam bastante entre plataformas.

Um detalhe que a maioria das pessoas ignora: a conversão de reais para stablecoin já implica exposição cambial. Se o dólar cair frente ao real, o valor do seu patrimônio em BRL diminui — mesmo que a stablecoin continue valendo exatamente 1 dólar.

A tributação, que ninguém explica direito

Aqui mora um dos maiores pontos de atenção. A Receita Federal enquadra criptoativos como bens e direitos, não como aplicações financeiras. Isso muda tudo na hora de declarar.

Ganhos obtidos com a venda de criptoativos — incluindo a conversão de stablecoin de volta para reais — são tributados como ganho de capital. A alíquota começa em 15% para ganhos até R$ 5 milhões e sobe progressivamente. Existe isenção para vendas que totalizem até R$ 35.000 no mês — mas essa isenção se aplica ao conjunto de todas as suas operações com criptoativos naquele mês, não só às stablecoins.

O DARF (Documento de Arrecadação de Receitas Federais) para recolhimento do imposto deve ser pago até o último dia útil do mês seguinte ao da operação. Quem ignora essa obrigação acumula multa e juros. A Instrução Normativa RFB nº 1.888/2019 estabelece também a obrigação de informar mensalmente operações acima de determinados valores às exchanges obrigadas a reportar à Receita — o que, na prática, significa que as corretoras já repassam boa parte dessas informações ao Fisco.

Comparado à poupança, que é isenta de Imposto de Renda para pessoas físicas, esse custo tributário é real e muda a conta do rendimento líquido.

Os riscos que ficam fora do folheto

Nossa opinião editorial aqui é direta: stablecoins são uma alternativa legítima e relevante para quem quer dolarizar parte do patrimônio e sair da passividade da poupança — mas apresentá-las como “poupança segura em dólar” é uma simplificação perigosa.

O USDT, emitido pela empresa Tether, já foi alvo de questionamentos públicos sobre a real cobertura das suas reservas. Não há auditoria independente e periódica com o nível de transparência que se esperaria de uma instituição financeira regulada. O USDC, da Circle, tem uma estrutura de reservas mais transparente e é auditado regularmente por firmas contábeis reconhecidas — o que não elimina risco, mas reduz a opacidade.

Existe ainda o risco de contraparte: se a exchange onde você mantém suas stablecoins fechar as portas ou for hackeada, não há Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobrindo seu saldo. O FGC protege depósitos em instituições financeiras reguladas pelo Banco Central até R$ 250.000 por CPF por instituição — proteção que simplesmente não existe no universo das corretoras de cripto, ao menos não com o mesmo amparo legal.

O colapso da stablecoin algorítmica TerraUSD (UST) — que perdeu toda a paridade com o dólar em questão de dias — mostrou ao mercado que nem toda stablecoin é igualmente estável. As colateralizadas em dólar, como USDT e USDC, têm mecanismo diferente, mas o episódio serviu de aviso sobre o que pode acontecer quando o modelo de estabilidade não é sólido o suficiente.

O que as stablecoins realmente entregam — e o que não entregam

O que elas entregam de verdade: proteção cambial passiva, facilidade de movimentação internacional, acesso a rendimentos em dólar sem precisar abrir conta no exterior e uma liquidez que instrumentos como o Tesouro Direto nem sempre oferecem no curto prazo.

O que elas não entregam: a segurança jurídica e regulatória de uma conta bancária, a proteção do FGC, a clareza tributária automática (você precisa controlar tudo manualmente ou com ferramenta específica) e a garantia de que a plataforma onde você está vai continuar operando.

Para quem compara com o Tesouro Selic — e deveria comparar, porque é o benchmark mais honesto para quem quer sair da poupança —, a conta fica mais apertada. O Tesouro Selic acompanha a taxa básica de juros, tem liquidez diária, é garantido pelo Tesouro Nacional e tem tributação regressiva (de 22,5% para 15%, dependendo do prazo). As stablecoins competem com isso, mas não ganham em todas as dimensões.

Para quem faz mais sentido entrar

Analisamos os perfis em que a stablecoin cumpre um papel mais claro. Ela faz sentido para quem já tem a reserva de emergência montada em produto seguro e regulado, quer diversificar em dólar sem a burocracia de uma conta internacional, tem horizonte de médio prazo e disposição para acompanhar a tributação de perto.

Para quem está começando a investir agora, com pouco capital e sem reserva de emergência, a stablecoin não é o primeiro passo. Nunca foi.

Há também um uso prático que cresce entre pequenos empreendedores e freelancers que recebem pagamentos internacionais: manter parte do valor recebido em USDC como proteção cambial temporária, antes de converter para reais no momento mais favorável. Isso é diferente de “investir em stablecoin” — é gestão de caixa, e faz sentido num contexto específico.

O contexto regulatório que ainda está se formando

A Lei nº 14.478/2022 estabeleceu o marco legal para prestadores de serviços de ativos virtuais no Brasil e delegou ao Banco Central a regulamentação e autorização dessas empresas. Desde então, o Bacen tem editado normas complementares que começaram a exigir das exchanges o mesmo nível de controle que se aplica a instituições de pagamento.

Esse processo ainda está em curso. O que isso significa na prática: a proteção ao consumidor está crescendo, mas ainda não chegou ao nível dos produtos bancários tradicionais. Operar numa corretora autorizada pelo Bacen — quando essa autorização estiver plenamente em vigor — vai representar um salto de segurança relevante em relação ao cenário atual.

Antes de fechar essa conta

O que não se sabe ainda — e que muda substancialmente o cálculo — é como a regulação definitiva do Banco Central vai tratar os rendimentos pagos sobre stablecoins mantidas em custódia. Se forem enquadrados como renda financeira e não como ganho de capital, a tributação muda. Se as corretoras autorizadas passarem a oferecer algum mecanismo de proteção ao depositante, o risco de contraparte diminui. Essas definições estão em movimento.

O que já se sabe é que stablecoin não é poupança — nem em risco, nem em tributação, nem em proteção legal. É uma ferramenta com usos legítimos e riscos reais que precisam ser entendidos antes de qualquer aplicação. Quem entra sabendo disso tem chance de usar bem. Quem entra acreditando no folheto vai se surpreender em algum momento — e surpresas no mercado financeiro costumam ser caras.

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